Capítulo VIII



       As nuvens que pairavam sobre mim tornaram-se mais negras no dia de levar a cremar o Hugo. Estávamos lá todos para a sua última presença na terra. Havíamo-nos reunido em casa do João e bebemos cerveja e fumámos e cheirámos, a fim de, quando o Hugo fosse a cremar não desatássemos a chorar que nem doidos. Afinal, éramos homens, caramba! Mas saiu-nos o tiro pela culatra, porquanto ao vermos as gentes a chorar também o desatámos e assim passámos uma vergonha dos diabos. Vergonha que era unicamente nossa, porque, realmente, quem não chora por um amigo? As nuvens pareciam de fumo de petróleo queimado.
Quando a Teresinha nos telefonara desatámos a rir, consequência do muito que havíamos consumido. E foi só quando o Espadas deu um berro “caralho, mas estais malucos, ou quê?”, é que nós viemos a nós e nesse momento pareceu cair-nos o mundo em cima. Quando tomámos consciência, e imaginai o quanto custa ficar consciente quando se tem metido não sei quantas gramas, fumado não sei quantas ganzas, bebidas não sei quantas cervejas, acorremos de imediato à casa da Teresinha. Quando lá chegámos, já a polícia e o INEM lá estavam. Ao vermos a polícia, demos meia-volta, o Maluco talvez tenha dado duas voltas e meia, e fomos para a discoteca que um dos Santos dera indicações de querer ir. Como é possível irmos para a discoteca quando um amigo nosso acaba de se suicidar involuntariamente? Pois, nós não sabemos. O que sabemos é que fomos e só nos lembrámos do Hugo no dia seguinte. Nem todos, acaso.
À entrada da discoteca encontrámos o Mariocas, que poucos dias antes nos tinha sido apresentado pelo Espadas. Com ele estavam a Maria Lourdes, o Paulo Quintão e o Pedro Osório, pessoas que por irrelevantes não se dirá mais nada a seu respeito. O Mariocas tratou de nos pôr dentro da discoteca, mercê dos seus conhecimentos. Igualmente, porque o que é de mais nunca é exagero, tratou de nos abastecer com o fruto proibido. De resto, seria desde então o nosso fruteiro predileto. Era um tipo bestial, é um tipo bestial. Dez minutos depois de entrarmos estávamos a sair com fito na casa do Mariocas. O tipo era um bom cozinheiro e dissera-nos que na noite que precedeu essa manhã fizera um arroz de cabidela e que ainda sobrara algum. Porque esfomeados, fomos para casa dele.
Pode um arroz desencadear uma série de sentimentos? Pode, pois. Estava eu a comê-lo, por sinal muito bem cozinhado, quando sou atingido por uma tristeza. Primeiro a partida da Bulé, agora a morte do Hugo. E neste pensar em coisas tristes sobreveio a Aninha. A minha vida não era apenas uma vida sem rumo, sem futuro e sem esperança, era uma tragédia com todos os condimentos de uma tragédia moderna dos autores pirosos. E eu que abominava esses autores era agora como que uma personagem criada por eles. Que mais mal poderia acontecer? Que esperar de todos estes sucessivos acontecimentos? Como lidar com eles? Se com a perda da Aninha resultou a minha vida na boémia, o que poderia resultar agora com a perda de um amigo? De dois, se contar a Bulé. Como lidar com a morte de alguém de quem gostamos? Nada me ocorria. Mirava os outros e eles pareciam não estar afetados pelo que estava a acontecer. Comiam o delicioso arroz alarvemente, falavam e discutiam, fumavam e bebiam, riam e cheiravam; e eu ali a olhar e a pensar em tudo aquilo, com um vazio que me consumia por dentro como um cancro que vai ganhando terreno até ao dia final.
Acabaríamos por sair já tarde da casa do Mariocas.
No dia da despedida do Hugo, creio que nenhum de nós se terá lembrado de que no dia em que ele se suicidara estivéramos a divertir-nos estupidamente.

A Teresinha, enjeitada por mim, coitada e pobre rapariga, havia decidido que nessa noite comeria alguém. E como a fome se juntou à vontade de comer, e nunca o provérbio se aplicou tão adequadamente, o eleito foi o Hugo. Pouco tempo depois de ter rejeitado a Teresinha, esta foi ter com o Hugo e perguntou-lhe se queria ir com ela a casa porque tinha lá umas coisas de que o pessoal iria gostar. As coisas eram ácidos. Mas o escopo dela era outro. Ela tinha ouvido durante a noite o que o Hugo andara a dizer, pois ele era um cromo do caralho e disse a toda a gente que a queria comer. Assim não pensou duas vezes na hora de escolher. E o Hugo não rejeitou, como bem calculais. Quando chegados a casa dela, o Hugo, fazendo-se despercebido, pois já sabia o que ela queria, perguntou-lhe que coisas eram, ao que ela respondeu que ácidos. Ora, o Hugo era atreito a ácidos. Quando ela lhos mencionou a primeira coisa em que pensou foi em metê-los. E foi a sua morte. Tudo isto nos contara a Teresinha um mês mais tarde. Ao que parece, a Teresa fora buscar os ácidos depois de muita insistência do Hugo. Ele meteu um, enquanto ela fazia um charuto. Ora, neste ínterim, o Hugo foi para a varanda e quando a Teresa foi lá perguntar se ele queria dar uns bafos é que se apercebeu que ele lá não estava. Chamou por ele. Foi aos quartos ver se ele estava lá. Sentou-se a fumar mais um pouco, talvez ele tivesse ido embora. E quando veio matá-lo, o charuto, à varanda é que se apercebeu de um corpo estatelado na rua. Eis o que aconteceu. O Hugo meteu o ácido e a tripar “amandou-se” da varanda abaixo. Típico dele! Mas não foi nada disto. Para quem esteve atento, sabe que o Hugo não se amandou da varanda da Teresinha, mas na do vizinho. Como foi ele amandar-se da varanda do vizinho? Pois, isso é o que contarei de seguida. 

Capítulo VII



        Pois bem, aquilo foi uma noite dos diabos. Quando acordei dois dias depois é que me dei conta do que tinha sucedido. Foi de arromba. Eis como tudo aconteceu e como veio a ser fatal para o Hugo, que, como vos disse anteriormente, se suicidou na casa da Teresinha nessa noite.
Era um tempo sombrio esse a que me dediquei, e as nuvens pairavam sobre mim como o remorso paira sobre o assassino, e, não obstante caminhei por ele sempre com um pé num lado e o outro noutro, quase coxo, porém seguro de que um era suficiente. Dir-vos-ia que nesse tempo sob a escuridão que ia desabando por sobre mim surgia de um lado uma parede que alertava a mediocridade e no outro a prosperidade e em frente surgia fulminante o futuro enquanto atrás ia desaparecendo tudo de mim e do meu passado e de tudo que fez parte de mim e mesmo quem não fez e tudo aquilo que me construiu e constituiu e o caralho que foda toda esta prosa nojenta e portuguesa que se tenta escrever.
Assim, tomei um copo de cerveja e novamente outro e mais outro e quando enfim dei por mim tinha mamado oito cervejas e estava mais para lá do que para cá, mas foi então que o Espadas veio ter comigo, mesmo quando o combinado era estar uma hora antes, o que evitaria ter bebido tanta cerveja, e me disse:
– Então, Zé, pronto?
– Caralho, então o combinado não era às oito?
– Desculpa, atrasei, fiz um antes de sair e acabei por adormecer.
– Foda-se!
– Já estás bebido.
– Não, só bebi algumas cervejas.
– Mas estás pronto?
– Claro, estou sempre pronto, caralho.
– Então vamos lá, que os outros já lá estão, segundo recebi mensagem há pouco do João. Queres fumar um?
– Pode ser, embora com as cervejas o mais certo é cair de morto.
– Tu és forte.
– Forte como o caralho!
– Ahahahaha (riu-se como um maluco, e eu é que as tinha bebido!)
Quando deixámos o estabelecimento do Manuel Queirós, um tipo cujo maior feito foi a sua filha Natasha, que era uma bomba dos diabos, caraças, e que em tempos fodi de longe (pelo que sei o João fodeu-a de perto. É o que se diz.), eram já perto das dez e em casa do João esperavam-nos há duas horas. A corja estava lá toda. E como sempre estavam umas gajas que não fazia ideia de quem caralho eram, mas cuja presença, de facto, era bastante apreciável. Não vou mencionar todas, afora aquelas que mais se destacavam, segundo critérios meus. Assim, estava a Rita Matos, uma fulana com umas mamas tão enormes como as mamadas que fazia. A Raquel João, uma fulana fácil e comestível. A Rita Gomes, uma fulana mais puta que as putas da esquina da Rua Doutor Gomes Maricas (sim, a rua existe mesmo). A Carolina Gonçalves, uma porquita com a mania que comia quem queria, mas que, no fundo, era comida por todos. E ainda, e por fim, a Maria Moniz, uma pacóvia betinha que ninguém comia porque não valia um caralho. Assim, a casa do João não era apenas a casa onde se consumia droga, mas um bordel com as maiores putas da cidade. Se é puta, tem de estar na casa do João, eis a frase que se tornou célebre por nós.
Nessa noite todos se safaram, até o Jota, um coninhas que de vez em quando se juntava a nós. Por ser um conas do tamanho da cona da Rita Matos, só é referido nesta passagem, restando no esquecimento.
Foi uma noite fatal, com efeito, para o Hugo. Mau grado não bater bem dos cornos, era um tipo bestial. Ainda hoje me recordo, como se fosse há minutos, da cara dele nessa noite quando veio ter comigo e me disse:
– É hoje que vou papar a Teresinha. (A forma como o dizia provocava sempre um sorriso em qualquer um de nós.) – Há um ano que ando tentar papá-la mas a gaja faz-se de difícil.
– Tens de ir com calma – disse-lhe.
– Ela hoje está bem boa.
– Ela está sempre boa.
– Não me digas que  já a papaste?!
– Eu? Nem pensar. – Na verdade, eu e a Teresinha temos uma história.
– …
– E então, que pretendes fazer? – E nessa altura aproximou-se de nós o Rodrigo, o seu irmão, e terminámos ali a conversa.
O Hugo era um tipo bestial, mas falho da cabeçorra. Alguma coisa não batia certa nos neurónios e a informação passava erradamente. Se hoje estivesse vivo, estaria aqui comigo, provavelmente, a fazer-me companhia, porque o Hugo, a despeito de tudo, era um tipo bestial e bestialmente bestial e mais do que isso, era um puto bestialmente bestial. O Hugo era bestial, sabeis? Bestial. Era de facto bestial. Bestial. Já eu sou uma besta que estou para aqui a repetir-me porque agora fiquei a pensar no Hugo e na sua tragédia, que, de alguma forma, também foi e é a nossa. Uma semana antes disse-me que o seu sonho era ser homem do lixo, pois, segundo dizia, adorava trabalhar de noite e andar agarrado ao camião e poder estar livre e não ter nenhum filho da puta a mandar vir com ele no trabalho. Sendo rico, era um tipo bestialmente desprendido das coisas. O irmão, o Rodrigo, é um tipo diferente. Muito ligado ao dinheiro, dá-se ares de afetado, apesar de bom rapaz e de excelente companhia. Quando o Hugo faleceu, passou um mês fechado no seu quarto e só de lá saiu quando, depois de todos nós discutirmos o assunto, o fomos levantar de lá. Foram precisas quatro horas para que se resolvesse a sair do quarto. Mas lá saiu. Aos poucos foi-se habituando, até quanto se pode habituar alguém com a morte de um ente querido, à ideia de desaparecimento do irmão. Desaparecimento é a forma como nos referimos à morte do Hugo, pois nunca nos referimos à sua morte. O Rodrigo começara a andar connosco poucos meses antes.
O Rodrigo e o Hugo foram-se para o outro lado da sala, com o Hugo olhando para mim e piscando-me o olho como que a dizer que a Teresinha estava daquele lado. Eu decidi-me a dar uma volta a ver o que se estava a passar na casa das putas do João Maluco. E foi então que passando eu por um dos quartos olho para o seu interior e vejo o interior de uma das Ritas, como quem diz, entenda-se o corpo, que nesse momento se despia para dar umas com o Mário, o irmão da Aninhas, que também por lá esteve, embora pouco tempo. O sacana safava-se bem com as mulheres. A irmã também se andava a safar bem, pelo que soubera dias antes. Mas isso já foi história. Já não o é mais. Recordo-me que após ver essa Rita despida e em busca não sei bem do quê me lembrei da Bulé. Havia dias em que sentia falta dela – porque de facto a sua companhia era para mim e para todos nós um verdadeiro sol que brilhava intensamente e nos parecia guiar por caminhos mais claros e seguros. Deu-me uma nostalgia nesse preciso momento que me levou a refugiar num dos quartos vazios a fim de a compreender.
Teria adormecido, talvez, ou atingindo um estado de recordação tal que parecia nem estar ali, mas na recordação, quando a Teresinha entrou no quarto. Cumprimentou-me e perguntou-me que ali estava a fazer e porque não estava a divertir-me como os outros. A princípio nem reagi à presença dela, tal era com efeito o estado em que estava, e nem sequer tinha consumido droga, ainda. Dois minutos passaram, acaso, e dou fé que ela ali estava a falar sozinha, parecia, mas afinal era comigo. Respondi-lhe que me refugiara ali porque não me estava a sentir confortável na sala e porque estava nostálgico. Não tivera eu esse propósito, mas as mulheres, por alguma razão que não sabemos explicar, compadecem-se por tipos que estão neste estado de lamúrias. E foi isso, creio ainda hoje, que levou a Teresinha a despir o seu vestido à minha frente, a pegar na minha mão e a introduzi-la no meio das suas coxas. Oh, que maravilha e quentinha era!, mas eu não estava para aí virado, e além disso, sabia que o Hugo pretendia comê-la nesse dia. Então, pedi-lhe desculpa, pois não estava com vontade, que me desculpasse. Ela felizmente compreendeu. Digo-vos, porém, que até hoje lamento não ter acedido a papá-la, pois, estou em crer, se o tivesse feito ela nunca teria levado o Hugo para sua casa e a sua morte porventura não teria ocorrido. Quando ela saiu, demorei-me uma hora para sair, fosse porque ainda latejava em mim a Bulé, fosse porque não me saía da cabeça a pelosidade da Teresinha, embora fosse ao contrário.
Por esta altura o João Maluco já tinha aviado uma das Ritas, e o Marco, pelo que viria a saber mais tarde nessa noite, umas três, porém nunca soube quais foram. Eu estava a seco e manter-me-ia, se pretendeis saber. Essa noite parecia prenunciar o que viria a suceder, e não sei porquê, eu já estava sob o efeito da escuridão. Foi então quando o Marco se abeirou de mim e me perguntou se queria um pouco de branca. Não era o que mais pretendia naquele momento, mas serviu igualmente. A nós vieram juntar-se o Espadas, os irmãos Santos, e o João. Enquanto a casa parecia estar sob assalto de malucos e malucas, nós ocupámos um dos quartos e ali ficámos a consumir e beber que nem alarves como se um asteroide estivesse na iminência de colidir com a terra e essa fosse a nossa última vez nela.
O Rodrigo entrou por essa altura no quarto e dissera-nos que o Hugo tinha saído com a Teresinha. Confesso que me alegrou saber que a minha rejeição resultou em pleno. Mas isso foi nessa altura, pois, hoje, arrependo-me deveras de não ter acedido ao apelo da Teresinha. A rapaziada toda ficou contente pelo Hugo porque tal como a mim ele contara e desabafara com todos sobre querer papar a Teresinha. Fizemos uma viva ao Hugo. Viva! Viva! Viva! E continuámos com a orgia.
Sairíamos de casa eram um quarto para as cinco, já o sol dava sinais de estar na espreita. Um dos Santos lembrara-se de querer ir a uma discoteca. Foi quando estávamos a sair da Porta que recebemos o telefonema da Teresinha, em pânico, a avisar-nos de que o Hugo se tinha atirado do apartamento dela.


Capítulo VI



      Quando se adormece a pensar no passado sucede amiúde passar a nossa vez. Isto aplica-se tanto à vida quanto ao que me sucedeu aqui mesmo nas finanças: passou a minha vez e agora tenho de tirar nova senha, raios partam! Mas não há stresse, porque tenho o tempo por minha conta. Desperto que estou do passado, noto que só resto eu dos que ainda há bocado cá estavam. É provável que se tenham rido de mim. Ou que nem sequer tenham reparado. Ou pior dos piores, que tenham chamado a polícia porque com medo de quem seja eu e do que aqui estou a fazer há bastante tempo. A mim tanto se me dá.
Depois do sol da Bulé ter brilhado à minha volta e dos meus amigos, mergulhei novamente no mar das drogas e dos ódios e quando vinha à superfície era unstoppable. Com efeito, eu gostava das drogas, na verdade, e verdade seja dita, e por norma digo-a sempre, não me arrependo. Creio que a experiência com as drogas e álcool, à parte os malefícios, enrijece-nos a personalidade. Se eu fosse um escritor português e de algibeira diria ser em vez de personalidade. Eles amam escrever ser e coisas com profundidade. O escritor português quer ser poeta sendo prosador. E quer ser filósofo sendo escritor. Mas resulta porém que nem é uma coisa nem outra. No que toca à primeira pretensão é que estão impregnados de Pessoa e querem-no ser. No que diz respeito à segunda estão influenciados pelos filósofos charlatães pós-modernos e os Heideggeres desta vida, e outros que tais. Já me estou a alongar. Voltando. Dizia que a experiência com drogas e álcool enrijece-nos a personalidade. Afirmo-o porque é o que se passou comigo e com a maior parte dos que conheci. Diria que essa experiência está para nós como a tropa estaria para os jovens de há uns anos. Sendo a comparação tão estúpida como o consumo de droga, também não deixa de o ser a ideia segundo a qual a tropa faz-nos homens. E isso atesta-mo o meu irmão sempre que dela me fala. Mas andemos que se faz tarde, e mau grado ter o tempo comigo não o tendes vós.
A partida da Bulé, acaso, agora que penso nisso, teve um efeito em mim análogo ao do término da Aninha. Daí que, o resultado fosse semelhante. Assim, a corja e eu voltámos ao que éramos antes do sol da Bulé ter iluminado as nossas vidas com a sua personalidade sui generis.
No dia em que se comemorava o dia da raça, como disse em tempos um nosso douto e sábio presidente, a corja reuniu-se em casa do João Maluco para celebrar a raça. Qualquer dia era dia para celebrações, na verdade. Mas nesse iríamos não só comemorar a raça, segundo esse douto e sábio presidente, mas igualmente a libertação. Recordo que, o calor que se fazia sentir nesse dia e o fresco da noite eram ambos resultado da ressaca anterior; de modo que, não vos posso dizer com exatidão se estava calor e fresco.
Reunidos que estávamos todos em casa do João, não tardou, como sempre não tarda, que nos abastecêssemos de droga da boa e da melhor e mais boa qualidade que alguma vez houvera em cima da terra e nos planetas todos do universo e para lá dele e o caralho que possa existir mais para lá de tudo o mais e o caralho. Este era o espírito, caralho. Só de falar nisto, caralho, sinto pele de galinha e sinto encarná-lo. O João fez uma jantarada para a malta que era daquelas que dão água na boca só de ver. Era um arroz que, caralho, meu deus, não valia chavo. Mas como estávamos com fome dos diabos comemo-lo como se fosse sapateira, marisco, e essas coisas todas que eu próprio não gosto nem de ver.
Como deveis estar a pensar, e bem estais, estou para aqui a enrolar a história porque me perdi nela e já nem sei o que ia dizer-vos, nem o que é ou não pertinente. É como se tivesse agora mesmo tomado um grande ácido e estivesse a tripar que nem o o Jonhy Depp e o Benício del Toro. E se calhar….
É assim, vou explicar-vos. Quando aqui entrei vinha todo acelerado de cocaína e café e álcool e essa merda toda. Depois como tinha de esperar bastante tempo pela minha vez, achei por bem contar-vos porque estou aqui e por isso iniciei por contar a minha história. Contei-vos um pouco anacronicamente, dado o estado em que estava. Depois ali a meio comecei a atinar e daí algumas reflexões e explicações. Porém, estava ali no meio dessas explicações e sem que ninguém topasse, tomei um ácido. Resultou então que estou para aqui a engonhar porque na minha cabeça, ou a minha cabeça, está uma roda viva. De sorte que, antes de voltar à história que me trouxe aqui, deixai-me voltar ao tema dos escritores de algibeira. Aguardai, tende paciência, pois lá voltarei não tarda. Agora que estou a tripar como o Depp e o del Toro, dai-me licença de usufruir da tripação. Não tem nada que ver com tripa.
A Bulé partilhara comigo antes de partir duas autoras portuguesas de quem se diz serem grandes escritoras. Pelo que pesquisei na altura, ambas receberam o prémio APE, essa associação que entrega prémios por encomenda. A mesma que entregou a essoutro grande e esplêndido e excelente e enorme e o caralho que o foda de seu nome Gonçalo M. Tavares. Os três têm em comum o prémio mas também o não escrever um caralho. Sendo arguta, a Bulé tirava-lhes a pinta toda. Analisava frase a frase de modo a trazer à tona o ridículo da prosa. Por exemplo, no que respeita à primeira, que se chama Alexandra Lucas Coelho, uma digna sucessora da Margarida Rebelo Pinto, e uma pedante do tamanho do ego do José Mourinho, escreve coisas tais como:
“Eu sei que se pode ser feliz como os gatos por causa do sol ou apesar da chuva. E pode não se ser feliz como os gatos faça chuva ou faça sol.” (Frases deste gabarito encontram-se bastante no Goodreads. Ide lá se pretendeis rir-vos um pouco.) Escrito em A Noite Roda, esse livro que o crítico José Mário Silva classificou em 8, 5 de 10. De facto, se eu estou a tripar de ácido, o José Mário Silva (o tipo que tem o blogue chamado Bibliotecário de Babel) deveria estar a tripar de cogumelos alucinogénicos. Aliás, este tipo de críticos é daqueles que fazem o favor aos amigos e às editoras. O mesmo fê-lo para uma fulana que a Bulé me mostrou. Chama-se essa fulana Ana Margarida de Carvalho. Pelo que sei, é filha do Mário de Carvalho, e tal como o pai, escreve umas coisas que dizem ser literatura. Desta não me recordo de nenhuma frase de cor, logo não vo-la posso citar. Mas ide ver, ide, caralho, e vede como se escreve tão mal em Portugal. O que espanta nestas coisas das comadres literárias é que a maior parte é ligado ao jornalismo, são todos de Lisboa, têm todos alguns conhecimentos do meio, e enfim são todos, sem exceção, indignos de se chamarem escritores. A banalidade da literatura é coisa praticada sobejamente em Portugal.
A Bulé era um espanto de moça!
Retomando o fio à meada, contar-vos-ei de ora em diante e sem mais delongas todas as peripécias que me levaram até aqui.


Capítulo V

Por esta altura transformei-me completamente. Já não pensava na Aninha, nem em mulheres, nem em amores, nem em nada que me tirasse do sossego. Também por esta altura descobri enfaticamente os poderes do álcool. Achava deveras divertido embebedar-me, mas sem cair, e andar na rua no meio das pessoas, observando-as, apreendendo as suas subtilezas.
Antes da transformação, porém, escrevi uma carta a Aninha declarando morto o meu amor e anunciando-lhe que de ora em diante nem uma lágrima verteria por ela, nem que ela morresse. Era uma carta-catarse escrita em modos que antigos, antevendo um certo gozo que me daria expurgá-la da minha vida sentimental e física.
Ei-la!
         Cristina Ana,
a decisão que vós tomastes de me fazerdes e tornardes órfão do amor foi para mim, como deveis calcular, um rude golpe nos meus projetos de vida, e mormente na minha visão romântica do amor. Doravante nem que me apareceis pintada de lágrimas a suplicar por mim fará mudar a opinião com que fiquei de vós.
Os momentos que outrora vivemos são hoje um poço de cujo fundo não se vê nem uma réstia de luz, tal a escuridão com cuja negrura se vestiu o meu luto por vós. Passado o nojo, sou hoje um homem novo. Novo e livre.
Peço-vos que me não contateis mais, nem em sonhos, pródigos em aparições, porquanto não vos falarei nunca mais até ao dia em que der o meu último suspiro.
Tenho esperança de que esta pequena e clara missiva seja o suficiente para que entendeis o quão longe já estais do meu coração e o quão renovado ele está das vossas sevícias.
Sem mais, 
Quim Zé.
        
Assim parti para outra, que é como quem diz.
Fosse pelo que me acontecera (o abandono da Aninha e ela estar noutra), fosse por um motivo qualquer que se escondera em mim durante largos anos, era agora um rapaz não só boémio e dado a loucuras orgíacas, mas também a severos arrebatamentos contra aquilo a que chamei a “falsa maneira de ser”.
A falsa maneira de ser era comum a muitas espécies. Era a maneira de ser dos betinhos, afetados, prepotentes, ridículos, bananas; era a maneira de ser dos remediados subsumida numa atitude despeitosa para com os ricos, uma forma camuflatória de ultrapassar a inveja; era a atitude dos pobres que se faziam de pobres coitados porque a sorte não lhes bafejou uma nota de quinhentos; era a dos velhos atores de tv que constantemente reclamavam na televisão mais reconhecimento e subsidiozinhos do Estado; era a maneira dos velhos que julgam que a idade lhes dá autoridade; mas era também a dos novos que julgam que são donos do mundo só porque novos;  era a maneira dos hippies que reclamavam paz e amor e guerreavam com os punks por serem mais cool (e que de hippies apenas tinham as vestimentas e as rastas porcas); eram os punks que se armavam em anarquistas sem contudo nunca haverem lido um livro que fosse de um anarquista – a única anarquia que praticavam era a estupidez; era a maneira ainda dos hipsters com cujos bigodinhos faziam a figura mais ridícula do nosso século, e bem assim a sua maneira afetada de intelectuais de sarjeta; era ainda todos os derivados dos hipsters, que mais não eram que uma outra forma de se ser o mesmo; eram ainda os dandy (derivado hipsters), com cujas barbas faziam sucesso ante as mulheres mas cujo cérebro era do tamanho dos seus pénis (isto fora-me dito pela Maria Joana Gomes e Menezes de Cascais, que era uma putéfia patricinha que dormia com todos os que pretendiam dormir com ela, mesmo aqueles que apenas tomavam banho aos fins-de-semana – e não, eu não dormi com ela, graças salve-se lá a quem); eram ainda os metaleiros cuja maneira de ser tiraria do sério um qualquer Vítor Gaspar, qual seja, a pretensa superioridade intelectual repescada de um Anton LaVey; era ainda, passando a outro segmento da sociedade, a dos professores que, pós-modernamente, citavam mais autores por minuto do que segundos tinha o minuto, só para dar uns ares de conhecimento, que era mais bibliográfico do que de leitura; era ainda a maneira dos trabalhadores de instituições públicas e outras cuja existência e alegria dependia do reconhecimento dos senhores doutores – no mais viviam sem significado; era a maneira das putas bimbas que se achavam mais que os demais porque no fundo se achavam menos; era a maneira dos espetadores de cinema indie (nesta categoria entram muitas das mencionadas acima, que isto de se ser falsa maneira de ser tem muito em comum) cuja atitude era a de que só vemos-cinema-indie-europeu-asiático-inteletual-porque-somos-diferentes-e-inteligentes-mais-do-que-qualquer-um-de-vós; ou ainda os da música indie cuja atitude era só-ouvimos-música-indie-porque-somos-muito-alternativos – estes confundem-se muito com os do cinema, as mais das vezes subsumindo-se uns nos outros; era a maneira de ser das feministas que tinham intolerância à lactose, de que nunca recuperaram, e cuja atitude daí derivada era o  horror aos homens; era a dos políticos cuja maneira era falsa por natureza – arquétipo ideal da falsa maneira de ser; enfim, ficar-me-ei por aqui porque corro o risco de colocar todos no mesmo saco – o que não deixa de ser verdade.
Em face destes arrebatamentos coléricos, passe a redundância, quase me tornei insuportável para mim mesmo. Não suportava nada. Não suportava ficar em casa a ver televisão e as notícias geradas através das redes sociais, o jornalismo de lixo que se tornou moda, muito menos nas redes sociais e o seu acefalismo, nem na internet no geral e as suas criações discursivas; enfim, parava-se-me o cérebro ante este espectáculo de pobreza que a internet gerou, contaminando tudo à nossa volta. De modo que, refugiei-me no álcool e droga e nas saídas constantes à noite atrás de noite.
Foi por esta altura que conheci uma rapariga cujo nome ainda hoje me não lembro, não obstante ter convivido com ela bastante tempo. Sabia apenas que lhe chamavam a Bulé, mas nem eu nem a corja que me acompanhava sabíamos o nome dela. Apareceu num dia em que o sol escaldava as pedras onde nos sentávamos para fazer uns e nos perguntara se tínhamos alguma coisa que lhe arranjássemos. Claro que nesta coisa das drogas a partilha é uma coisa que nos assiste, a menos que se trate de cocaína, droga que por ser cara torna os drogados em sovinas. Todos se apressaram a fornecer-lhe um pouco de ganza e convidámo-la a sentar-se connosco. Vinha não se sabe de onde, chamava-se Bulé, mas não era o seu primeiro nome, ia não sei bem para que lado, fumava não sabia bem porquê, era linda sem saber como, desejada porque uma putéfia, a única certeza que tinha em toda a sua existência. Passou a dormir na casa do João. Tanto quanto até hoje sabemos, nunca se envolveu sexualmente com ele. O que, bem vistas as coisas, não era assim uma putéfia como quiseram fazer passar. De cabelo curto que mais parecia um homem, olhos cor do céu em tempos de primavera, nariz mediano, de média altura mas abonada em termos de seios, com um cu que fazia perder a cabeça qualquer homem, inclusive os maricas (veja-se bem o cu que ela tinha que, por ser tão bom, até tornava maricas em homens!), com um sorriso tântrico, tinha além destes atributos a capacidade de tornar alegre qualquer casa, qualquer grupo, qualquer depressivo, qualquer drogado, qualquer bêbedo, qualquer pessoa em crise existencial, qualquer pessoa a passar pela fase de fim de namoro, qualquer ressacado com falta de heroína, de resto era capaz mesmo de curar a ressaca só com a sua presença e o seu sorriso tântrico, qualquer emo, enfim era a alegria em pessoa e por isso todos nós gostámos dela a acolhemo-la tão bem. No dia em que se foi embora todos os machos do grupo pareciam uns maricas, tal a quantidade de lágrimas que foram derramadas. Mais parecia um oceano. Foi porventura a melhor coisa passou pelas nossas vidas.
Estabeleci de imediato com ela uma química interessante que se viria a tornar numa boa amizade, mesmo quando nos envolvíamos. Na fase em que tudo me irritava a presença dela fazia a minha existência e tudo aquilo que vim a odiar mais suportável. Era com efeito uma rapariga esplêndida, dotada de recursos intelectuais superiores aos néscios que éramos. Tal como eu fora outrora, também ela era muito dedicada à leitura, de modo que, quando ela passou a fazer parte da minha vida a leitura voltou a fazer parte da minha também. Creio, não me recordo bem, que fora no segundo dia depois de ela nos ter encontrado que a vi a ler um livro do Charles Dickens, Tempos Difíceis, em inglês, pois não havia tradução portuguesa (sabe-se lá porquê e quais as razões de as editoras não o terem traduzido). Sentei-me ao lado dela, comecei a fazer um e perguntei-lhe que livro estava a ler (apesar de já o ter visto). Ela dissera-me. Perguntei-lhe se gostava de literatura portuguesa ou se só lia literatura estrangeira, ao que me respondeu:
– Zé Quim…
– Não me chamo Zé Quim, mas Quim Zé.
– Vai dar ao mesmo. Zé Quim, literatura portuguesa apenas leio os clássicos, tais como Eça, Camilo, Herculano, Garret, e o Gonçalo M. Tavares.
– Ai o Gonçalo M. Tavares é já um clássico?
– Segundo consta nos críticos literários e na academia é já um clássico. Olha só aquele livro dele, A Viagem à Índia, já declarada uma epopeia equiparável aos Lusíadas do Camões. Tudo isto dizem os críticos e a academia. Há, imagina tu, teses de doutoramento a realizar-se sobre a obra dele. Há quem diga que ele vai receber o Nobel.
– Já fumaste muito hoje?
– Dois.
– Logo vi.
– Porquê?
– Só muito drogada podias estar a dizer tanto disparate.
–  … (riu-se que nem doida, como aqueles desenhos animados que se deitam ao chão perdidos de riso).
– Olha, quanto aos primeiros, é verdade. No que respeita ao segundo estava na tanga contigo.
– Bem, assim está melhor. Acho que já nos podemos entender. Deduzo então que não gostas dele?!
– Odeio. É um tipo pedante, que escreve supremamente mal, que explora ideias gastas e de filósofos duvidosos. Se aquilo é o que a literatura portuguesa tem de melhor, então vou ali e não venho mais.
– Mas então que achas de todo o hype em torno dele? Creio que o termo é hype, certo?
– Sim, é hype. Eu não gosto da palavra, mas emprega-se bem quando se trata dele. Mas queres que te explique porquê este hype em torno dele?
– Sim, claro.
– Quanto tempo tens?
– Como assim?
– É que dá conversa para mangas.
– Seja, as minhas são grandes.
– Faz um enquanto explico.
– Já a fazer.
– Pois bem, aquilo que acho em relação a esse hype é que há como que uma orfandade na literatura portuguesa depois da morte do José Saramago, que, como sabes, foi só o melhor romancista que a literatura de língua portuguesa teve, e em consequência a crítica e as editoras e a academia têm necessidade de suprir essa morte. E para esse efeito encontraram este tipo, que não sabe escrever um parágrafo com mais de duas linhas, e em conjunto, academia e crítica e editoras estão a levá-lo e a elevá-lo a um patamar que ele nunca atingiu nem nunca virá a atingir. Porquê ele e não outros, deves estar a perguntar-te. Pois explico. Creio que parte muito do facto de ele ser professor universitário (imagine-se que dá uma coisa chamada epistemologia, coisa que, estou segura, nem ele sabe o que é), pois assim como que legitima as críticas que lhe fazem. Mas como bem sabemos e o José Saramago nos mostrou, entre tantos outros, não é preciso ser-se doutor para se ser grande escritor. De resto, as mais das vezes são justamente os que não têm qualquer habilitação (às vezes, imagine-se, habitação) que se tornam grandes escritores. Não sei se concordas comigo.
– Nunca tinha pensado no assunto senão unicamente refletido sobre a pobreza de estilo e de manejo da língua que ele incorpora.
– Queres matar?
– Não, mata tu.
E assim passámos quase um dia a falarmos sobre literatura e a pobreza da portuguesa contemporânea, e enfim dalguma estrangeira, e essas coisas todas. A presença da Bulé foi um analgésico para mim. Durante a sua estada cá no burgo tornei-me mais calmo, deixei os ódios, abandonei algumas orgias, mas não todas. Pior foi quando ela partiu: emergiram novamente os ódios e a tendência para as orgias.

Gostastes da Bulé? Pode ser que volte a falar dela se em caminho surgir oportunidade. 

Capítulo IV

A partir desse dia começámos a frequentar a casa do João Maluco. Eu, o Marco Embuste e os irmãos Santos. Lá conhecemos o Hugo Salgado e o Vítor Espadas. Posso adiantar, já, que fora por intermédio do Vítor Espadas que conhecemos o Mariocas, o responsável por eu estar neste momento nas finanças sentado à espera que chegue a minha vez com vista a perguntar a estes senhores (e senhoras, bem as hajam) se sabem o que faz um caracol sentado ao sol. O Hugo era um rapaz problemático, com tendências pró-suicidas. O Vítor, um rapaz saído de uma família disfuncional cuja figura maior era o seu irmão de sete anos. Quer dizer, o rapaz era o único com alguma cabeça. O resto era marado dos cornos. A mãe era puta, o pai paneleiro, e a irmã estava a caminho de ser uma putéfia, igualmente. Coitado, o rapaz com este ambiente teve de virar drogado. O Hugo era o oposto, com raízes nos Salgados, era filho de pais ricos, nada disfuncional mesmo, dando-se todos muito bem, inclusive quando se tratava de roubar. Como o dinheiro sobejava, ele fazia questão, e dizia mesmo, de o foder, palavra dele, na droga, não fossem ele e ela acabar (ele o dinheiro, ela a droga). Já agora que estou numa de romancista piroso, falarei também da família dos Santos. Os Santos eram uma família abastada, com dinheiros que saíam do cu das calças como do mesmo sai todos dias a trampa (perdoai-me os tabuísmos, mas é que eles fazem parte da língua e, por conseguinte, não vejo porque não usá-los). Mas o que lhes sobrou em dinheiro, faltou-lhes em dicção. O Ricardo não conseguia pronunciar os erres. O Duarte era gago. Aquele, quando se lhe perguntava como se chamava, respondia: “Dicado”. Este respondia: “Cha … cha … cha .. mo … mo … -me Du … du … du … ar … ar … te. Coisa estranha, talvez, nunca pesquisei, é que ambos não padeciam destes problemas quando fumavam droga e aí encontravam ânimo para fumar todos os dias. Bem, já agora arrumo igualmente o Mariocas. Este não tinha pais nem avós, nem tios, nem irmãos, nem ninguém que lhe conhecêssemos. Tanto quando nos fora dado saber, fora educado (bastante bem, diga-se de passagem, não obstante a sua propensão para as drogas) numa instituição. Ora, era um miúdo institucional, não é assim que se diz agora? Ou será institucionalizado? Que se lixe, não importa. Aos dezoito resolvera sair da instituição que o educara e mantivera até então e começar a sua própria vida. Trabalhava nisso há bastante tempo. Economizara na droga durante dois anos, consumindo muito pouco e vendendo muito mais, de modo que, hoje tem uma casa cuja renda consegue pagar porque trabalha, e cuja vida só é assombrada pelo vício. No mais, é um rapaz normal. Ah, e é um rapaz alto, magro, com olhos azuis e cabelo loiro, por vezes ruivo quando o pinta, ou nada disto é verdade. Enfim, é um rapaz anatomicamente igual aos demais. Deixai-me explicar a tendência pró-suicida do Hugo. O tipo tinha umas ideias muito maradas. Achava que o suicídio era o ato maior da vida. Que quem se deixasse morrer e não se matasse não era digno de ter vivido. Assim como assim, veio a suicidar-se numa tarde de inverno de sol quente quando estava sob efeito de ácidos e se amandou do sexto piso do prédio do vizinho dos pais da Teresinha. Coitado, ainda hoje nos lembramos dele com frequência. Era um tipo muito especial, o Hugo. A Teresinha era uma moça cujos cabelos faziam mossa nos homens, mas não é personagem deste relato, e por isso ficará sossegadinha em sua casa. Se aparecer novamente é por desleixo meu. É que mais tarde irei ter alguma coisa com ela. Passageira. Adiante.
Tudo mudara desde que a Aninha me deixara. Passei a dar-me com os marmanjos de que vos tenho falado, a fumar droga, a beber em demasia, deixei de ir à biblioteca requisitar livros, embora leia com a mesma frequência, sobretudo quando passo noites acordado a fumar, pego livros emprestados deste ou daquele, mais das vezes da casa dos Salgados, às vezes não os devolvo, a frequentar bares e discotecas dúbias e a dar-me com pessoas mais dúbias ainda. Enfim, não creio que fora unicamente pela Aninha me deixar, honestamente. Acho que resultou de alguma outra coisa que de dentro de mim queria explanar-se, mas que eu ainda não entendi. Deixei de ver a Aninha e ela passou a não entrar no meu cérebro como o fazia antes. De início ainda me lembrava dela, mas depois gradativamente foi desaparecendo como desaparece um carro na estrada lá longe. Agora dividia o meu tempo entre a casa dos Salgados, às vezes na do Vítor, na dos irmãos Santos, e mais tempo na do João Maluco. Perdoai-me, pois esqueci-me de referir donde viera o João Maluco. Bem, o João era Maluco, e basta. Adiante. Na casa dele por vezes ficávamos noites inteiras a jogar playstation e a fumar droga. Por fim, comecei a deixar de ir às aulas. Porém sem os meus pais saberem. Até ao dia em que vieram a saber. Mas cada coisa a seu tempo.
Um dia, desses de sol intenso cujo calor abrasa qualquer pêlo do cu, estava eu indo ter com o Salgado, o Hugo, quando começou a chover com uma intensidade tão grande que eu me senti quase como que afogado de tanta água que caía do santo céu, mas como sabia nadar e bem, lá consegui dar umas braçadas e aguentar-me à tona, como quem se aguenta com umas boias, e acabei por chegar à casa do Salgado. Quando entrei, virou-se este para mim:
– Que se passou, que ainda agora estava sol e agora está a chover? – e respondi eu:
– Que se passou, que ainda agora estava a chover e agora está sol? – e desatámos a rir sem alma como o diabo. As nossas conversas, sobretudo entre mim e o Salgado, eram providas de uma eloquência filosófica como só o Gonçalo M. Tavares consegue produzir nos seus textos. Ou seja, era aquela filosofia da tasca que consome em demasia os bêbedos e alimenta de alegrias leitores néscios. Nesse dia em que choveu a potes e fez sol quente como do inferno, eu e o Salgado fumámos uns, sei lá, trezentos e quarenta mil charros, mais extra. Enfim, quando os outros chegaram já nós não nos conseguíamos levantar. Foi uma porrada de droga que eu sei lá. Uma coisa bestial ao nível dos melhores e maiores do mundo da droga. Só visto mesmo. Só estando lá mesmo. Quando os outros começaram a enrolar, já nós dormíamos como o velhinho que mal cai na cadeira está logo feito bebé. E quando acordámos para sairmos para a casa do João Maluco, que ia dar uma festa de arromba, já não nos apetecia levantar, sair tampouco. Mas o Espadas, que nestas coisas é um tipo bestial, incentivou-nos como só ele sabe fazer, e enfim lá fomos para a casa do Maluco. Nem vos conto. Essa noite foi de doidos. Quereis mesmo que vos conte? Tendes a certeza? Pois bem, então cá vai.
Era uma noite muito muito escura, como o breu, daquelas que só escritores de qualidade conseguem descrever em palavras. Quase não se via nada, parecia nevoeiro. Nem as luzes da cidade eram suficientes. A meio do caminho quase nos despistámos. Que coisa. Haviam de ver. Mesmo só visto. Mas enfim, a moca passou e a noite tornou-se tão clara que a lua parecia ser de lua cheia. Estava mesmo de lua cheia. Ou então em formato queijo suíço ou o caralho. Sei lá. Não importa. Quando chegámos a casa do Maluco só se viam mulheres por todo o lado, homens também, mas o nosso cérebro só via as mulheres. Estava lá a Teresinha, mas não foi desta. Para a frente contarei, se achar necessário. A Aninha é que nunca estava. Nunca a vi nestas festas nem noutras nem nunca mais até um dia… mas isso é outra história. Vou mencioná-las, que saibais, eram então: a Maria João, a Rita Fonseca e putinha do Paulo, Inês Gomes, Francisca Fonseca, irmã da Rita, Paula Lopes, Paula Mariana e Gomes de Sá, a filhinha do velhote da tasca Gomes de Sá, Alexandra Fortes, Teodora Oliveira e Pereira (com esta era de rir em fartote com o nome dela), Sónia Bravo, Lúcia Cardoso, Joana Hofstadter, aparentada do génio, Carminho Bettencourt (a mais requisitada quando se estava bêbado), Luzia Camacho, a espanhola, e estou em crer que não falta mais nenhuma. Se faltar, é porque não teve interesse.
O João recebeu-nos com uma alegria que não sei se era sincera ou resultado do que já fumara.
– Entrem, entrem, que esta vai ser de arromba.
– Eu cá já não posso mais … – Dissera-lhe o Hugo.
– Qual quê, a noite ainda está no começo.
– Mas nós já começámos há muito. – Dissera-lhe eu.
– Quando chegámos a casa do Hugo para os ir buscar a ele e ao Quim Zé, já eles estavam aterrados de tanto fumar. João, havias de os ver. Pareciam dois velhos.
– Eu tenho uma coisa que vos vai espevitar.
– Ai é? – Perguntou o Espadas.
– Sim, mais para a frente. Por agora sirvam-se das bebidas, da erva e divirtam-se. – disse o João. E assim fizemos. Oh, e como fizemos!
No que me tocou, comecei por mamar logo um uísque, já que quando misturado com erva era cá uma moca que eu sei lá. Tanto quanto tinha lido há uns dias, um estudo qualquer de uma revista qualquer, sei lá o que caralho era, afirmava-se que a mistura da erva com o uísque era o equivalente à moca da cocaína. Então não estive pelas medidas e enfrasquei forte e feio. O Espadas ainda me veio dizer para ir com calma, porquanto a noite estava a começar. Mas fosse porque me não queria lembrar da Aninha (agora raramente me lembrava dela, emergindo ela unicamente quando estava bebido), ou fosse por razões que eu desconhecia e me impeliam a beber e chafurdar forte e feito no álcool e droga, eu mergulhava naquela orgia como se o amanhã não viesse. O Hugo acompanhava-me deveras nesta desgraçada orgia. Divertíamo-nos à brava. Os Santos começavam já a apurar a fala, quase não gaguejando um mas pronunciado os erres o outro. As coisas compunham-se mal avançava a noite. As mulheres apareciam-me como princesas envoltas em vestidos roxeados e esmeraldeados, belas como a Aninha, eram Aninhas multiplicadas vezes sem conta … e eu abraçava-as histérico, dançava com elas ao som da música, forçava um beijo aqui e acolá, e a maior parte correspondia, não para espanto meu porque não estava em condições de pensar, mas se o tivesse sentir-me-ia espantado, até ao dia em que compreenderia que quando se está nestas condições de lucidez faltosa todas as coisas são possíveis. O João, notando em mim a faísca que ia saltando em ordem a pegar fogo, aproximou-se de mim e ordenou:
– Quim Zé, anda comigo ali ao quarto que tenho algo que te fará bem. – E eu lá fui com ele. Quando entrámos no quarto, ele tinha em cima da secretária uma farinha branca, a qual, estando eu em condições deploráveis, pensei ser magnésio. E virei-me para ele e disse-lhe então vais dar-me magnésio? E ele:
– Não, Zé. – Normalmente tratavam-me por Quim Zé, mas a dado momento, por preguiça, tratavam-me ou por Quim ou por Zé. – É cocaína. Queres? Acho que te fará bem para cortar essa bebedeira. – Bem, eu não estava em condições de pensar, como deveis calcular, e se ele o dizia … Porém, recordo-me de ter visto isso suceder em Californication, quando o Hank Moody, esse personagem já cultuado por meio mundo, estava para dar uma palestra ou coisa que o valha mas estava com uma bebedeira daquelas que só ele sabia e então os amigos lograram como solução ir buscar cocaína a fim de ele consumir e aliviar-lhe a bebedeira. Sacou, o João, do cartão de multibanco, começou a separar a montanha (passe o exagero, embora já fosse uma boa dose) e fez ali quatro linhas muito célere, duas para ele, duas para mim. Enrolou uma nota de vinte euros fazendo uma espécie de canudo, snifou e explicou como deveria fazer. Não foi difícil, já que na televisão via-se com frequência. Imitei-o. Quando voltámos à sala, bebi um pouco de água. Em meia hora estava, de facto, bastante melhor. Mais desperto, mas não menos bêbedo. Sentia-me melhor, mais atento.
Antes de o João me levar ao quarto estava a mirar a Paula Mariana e Gomes de Sá, a filha do tasqueiro, patricinha doce e bela, mas sem se igualar à Aninha, embora de corpo não ficando longe. O Espadas já andava em derredor da Carminho Bettencourt. Os irmãos Santos atiravam-se um à Alexandra e o outro à Lúcia Cardoso. O Hugo, por seu turno, estava tão, mas tão fora de si que não ligava a nada nem a ninguém. Quando entrava naquele estado quase-transe a vida parecia-lhe parar. Abeirei-me da Paula a fim de comunicar com ela, mas foi ela a tomar a iniciativa. Quereis adivinhar o que ela me perguntou? Claro que sabeis, não é difícil. Quando se namora a mulher mais bonita da escola não há mulher que se nos escape das mãos. Então, pergunta ela:
– Não eras tu que namoravas a Cristina Ana? – Vedes, foi fácil. Já começava a habituar-me à pergunta e resolvera colher dividendos desta situação. Assim como assim, fizera-me de rapaz abandonado, o pobre coitado cuja beldade o vilipendiara publicamente votando-o ao esquecimento, e respondi:
– Sim, sou. Tem-la visto? – A pergunta tinha propósito, fá-la-ia pensar que eu ainda pensava na Aninha, o que faria, por sua vez, ela querer-me confortar na eloquência dos seus ombros amigos.
– Sim. Acho que ela anda com o Miguel. – Caramba, se eu estava meio bêbedo depressa fiquei sóbrio. Nem queria acreditar no que estava a ouvir. Desandei dali para fora para apanhar ar. Ela veio atrás de mim até ao jardim lá em baixo e dissera-me:
– Não sei se é verdade, foi o que me contaram. – Mas eu já não queria saber. Que fodesse o Miguel, que fodesse com quem quisesse. Se ela podia, eu também. E assim, mudando de conversa astutamente, indaguei a Paula sobre como viera ali e como conhecia o João. Tudo para fazer conversa e não pensar mais na Aninha. Mas sobretudo porque agora queria ir com ela para o quarto do João e deitar-me na cama com ela, esquecer a Aninha, beijar a Paula, descobrir o seu corpo e não pensar em mais nada. Quereis saber se assim foi? Bem, deixo isso para mais tarde, se até lá achar que é necessário voltar à Paula Mariana e Gomes de Sá.
No dia seguinte fui acordar na casa do Vítor Espadas. Bem, mas que coisa mais marada acordar assim numa casa cuja única pessoa saudável da carola era o puto de sete anos. O Vítor também o era, mas … Assim, quando dou por mim estou numa conversa assim prò marada com o puto.
– Como te chamas?
– Quim. Zé, Quim Zé.
– Eu chamo-me Mané. Manuel. Mas chamam-me Mané. És amigo do meu irmão?
– Sou sim.
– O meu irmão tem muitos amigos. Tu nunca cá vieste a casa.
– Não.
– Não perguntei. Afirmei.
– Sim, eu sei, mas resolvi responder.
– Como podes resolver responder a uma não-pergunta, se não te perguntei nada?
– A fim de esclarecer melhor.
– Mas eu não pretendi ser esclarecido, uma vez que já o estava, daí que afirmei e não perguntei.
– Pois… – Não me bastava a ressaca, ainda tinha de levar com a filosofia do puto.
– Pois o quê?
– Nada. Deixa para lá.
– Como posso deixar para lá o nada?
– Não tens que fazer?
– Não. Os meus pais ainda não chegaram.
– Que horas são?
– Dez da manhã.
– E onde estão os teus pais?
– A minha mãe saiu ontem à noite, foi trabalhar. Trabalha de noite. Vende-se. E o meu pai deve ter ido procurar homens.
– E a tua irmã?
– Ah, deve ter ido a alguma festa. Passa a vida em festas com as amigas.
– Não tens sono?
– Já dormi toda a noite.
– Sozinho?
– Sim, não tenho medo. Estou habituado.
– Volta a dormir.
– Já te disse que não tenho sono.
– Então vai brincar.
– Não tenho com quem. Queres brincar comigo?
– Não, quero dormir e agradecia que me deixasses dormir, sim?
– Oh, podias vir. Podíamos jogar xadrez. Sabes xadrez?
– Não.
– Eu ensino-te. – o raio do miúdo não havia forma de me deixar em paz.
– Não, hoje não. Não estou com cabeça.
– Andaste nas drogas como o meu irmão?
– Não.
– Não me enganas.
– Nem quero.
– Mesmo que quisesses não o conseguias.
– Está bem.
– …
– …
– Queres tomar alguma coisa para a ressaca?
– Que tens aí?
– Sumo de laranja, o meu irmão diz que faz bem.
– Pode ser.
– Já te trago. – E adormeci novamente até que o puto veio com o sumo e me acordou, novamente.
– Está bom?
– Sim, obrigado. Agora deixa-me dormir, sim?
– Oh…
– …

E assim adormeci mais umas horas até os pais do miúdo e do Vítor haverem chegado. 

Capítulo III

O que vou contar de seguida precisaria de uma bolinha vermelha. Irei porém evitar todas as obscenidades. Ou sempre que possível.
Poderia começar este capítulo (da minha vida) como alguns romancistas da praça que, à falta de talento, iniciam os seus romances sempre da mesma maneira. Por exemplo: estava um dia de sol, brilhante, que entrava por a casa adentro. Ou ainda: naquele dia, João Maluco, sentado em seu sofá, recebera-nos em casa. É já um hábito dos romancistas de algibeira referirem de início o estado tempo (como se alguém quisesse saber disso para alguma coisa); a referência ao estado tempo é uma constante. Ou então começam por descrever o espaço ou caracterizar a personagem (para eles o personagem). Como por exemplo: a sala era enorme, quase majestática, e as pessoas bebiam os seus uísques enquanto conversavam. Nas paredes, os quadros conferiam à sala a envolvência cultural que então se vivia. E essas tretas todas. Ou então voltam-se para a personagem (ou personagens) e escrevem: João era alto, magro, usava uma barba de três dias e tossia de vez em quando, fruto do seu problema asmático (a referência à asma era frequente em autores do século XIX). Mas eu não quero saber disso, pelo menos por agora e evitarei sempre que necessário. Se houver ocasião de descrever o estado do tempo que fazia à época em que se passa esta história (para eles estória), fá-lo-ei porque a referência era necessária, porque o estado do tempo de alguma forma implicará a ação. Quem quer saber do estado do tempo, quando nem os meteorologistas o compreendem? Assim, começo por referir, e não me demorarei mais em questiúnculas romanescas, que no dia em que conheci o João Maluco estava um sol radioso, daqueles que lembram o verão de agosto, e adentrava em sua sala e queimava o sofá onde ele estava sentado, fumando o seu charro de erva marijuana. Fui parar a casa do João Maluco por intermédio do Marco Embuste. Este era um rapaz alto, magro, com barba de três dias, olhos com olheiras profundas, de quem parecia não dormir há dias, se não semanas, com uma capacidade para memorizar palavras do dicionário como mais ninguém. Veem como é fácil cair neste clichê? Não se passou nada disto, exceto o facto de realmente conhecer João Maluco por intermédio do Marco Embuste. Este era um rapaz normalíssimo em todos aspetos. O sol não brilhava nem adentrava na casa do João Maluco. Porém o João Maluco fumava a sua erva. Não me alembro do tempo. Talvez chovesse, até. Ou estivesse nevoeiro. Ou até fosse de noite. Juro-vos que não me alembro de nada. Mas não importa o que não tem importância nenhuma.
Conheci o Marco através dos irmãos Santos, o Ricardo e o Duarte. E conheci estes na noite em que a Aninha me despachara como quem avia receitas médicas. Essa mesma em que pela primeira vez dei uns bafos num charro, num baseado, como dizem os brasileiros. Sabíeis que um dos significados de charro é, segundo o dicionário Houaiss, “a que falta de refinamento: grosseiro, rústico, tosco”? O Aurélio apenas regista estas últimas. Empregada com este sentido a palavra tem uma outra ressonância. Vede bem: ele era um indivíduo charro. O carro tinha um aspeto charro. Não achais lindo? Eu acho. Os irmãos Santos viram-me apartado da festa e então abeiraram-se de mim e perguntaram-me:
– Não és o cunhado – nesta altura deram por assumido que me casaria com a Aninha, mal eles adivinhariam que seriam os culpados da nossa separação. Ou porventura terei sido eu, uma vez que eu é que aceitei dar os bafos – do Mário, o que namora a Cristina Ana?
– Sou sim. – respondi solícito. Era bom poder falar com alguém, visto que estava há já quase uma hora sem o fazer, unicamente vendo as pessoas andarem de um lado para o outro.
– Ela não está cá hoje?
– Não. Foi ficar à casa da Maria Joana. Não gosta destas festas.
– E tu gostas?
– Na verdade é a primeira vez que venho a uma.
– Então anda daí divertir-te.  –  E claro, lá fui. Primeiro começaram por me dar de beber, depois de bebido e já com a cabeça à banda, ofereceram-me um charro. A Aninha decidira-se a passar por lá, com a Maria Joana, no exato momento em que estou a dar dois bafos. Aninha, Aninha, era um cigarro, era um cigarro, não sejas assim, vá lá, era um cigarro. Mas ela já ia a sair em fúria apressada. Só lhe vi os lindos cabelos já ela estava a cruzar o muro que rodeava a casa. Havia-vos dito que não contaria nada sobre esta festa. E assim será. Referi este aspeto unicamente para saberdes como conheci os irmãos Santos.
Após esse dia, e porque me sentia tão só sem a minha Aninha querida e fofa e maravilhosa, meu mel que me sarava de todos os males de que por vezes sofria, vede bem a piroseira a que se pode chegar e que se pode dizer (o Houaiss e Aurélio não registam piroseira), passei a sair com os Santos. Como bem calculais, não foi preciso muito para começar a fumar uns charros baseados. De início apenas dava uns bafos. Aquela coisa de se estar a fumar e passar o charro para dardes umas passas. Sempre no fim, como é apanágio de quem é debutante. E daí a fumar mais do que umas passas foi um instante. Um tiro. Passei a saber enrolar os charros; e daí a comprar o meu chamon e fumá-lo sozinho foram dois passos curtos. Se me perguntardes porque é que passei a fumar com frequência, talvez a minha resposta esteja relacionada com a perda que foi da Aninha. Mas confesso-vos que não sei se aí está a resposta acertada. É que eu passei a gostar daquela sensação de estupidez que se tem quando se fuma. Passei então a fumar com frequência, uma vez sozinho, outras com os irmãos Santos. Por agora era apenas nestas circunstâncias e com estas pessoas. Não faltou muito, todavia, para que me juntasse a outros na partilha das experiências com drogas. Foi assim, por exemplo, que sucedeu quando os irmãos Santos me apresentaram o Marco Embuste. Este era um rapaz alto, magro, com barba de três dias, olhos com olheiras profundas, de quem parecia não dormir há dias, se não semanas, com uma capacidade para memorizar palavras do dicionário como mais ninguém. Ou talvez nada disto é verdade. O Marco era um rapaz afável. Nem alto, nem baixo, nem magro, nem gordo, nem com olheiras profundas, nem dormia mal, nem com capacidade de memorizar o dicionário, nem com olhos azuis e cabelos pretos, nem usava óculos, tão-pouco via mal, nem fumava sequer, apenas uns baseados charros, nem usava sapatilhas tamanho 45, nem era paneleiro, nem se dava a ares de sabichão, nem de queque de betinho, nem o caralho. O Marco era o Marco. O Marco Embuste. Conheci-o num dia de chuva intensa, daquelas que molham um gajo todo, embora não estivesse a chover, e apresentaram-mo no dia em que o sol sorria lá do alto e fazia calor imenso que não dava sequer para estar à sombra, e então ele dissera-me:
– Não eras tu que namoravas a Cristina Ana? –  E eu respondera que sim, que era, mas por que raio tendes que me fazer sempre essa pergunta. Consentiu que não fora muito inteligente em perguntar, e toma lá, fuma deste. E assim fumámos um, outro, e mais outro, e talvez outros tantos cuja soma era capaz de pôr uma máquina de fazer contas toda marada. Era um tipo bestial, de facto. Um tipo sem olheiras. E isso era suficientemente atrativo para quem pretendia passar despercebido. Enfim, resumindo, conheci o Marco Embuste por meio dos irmãos Santos, e conheci o João Maluco por intermédio do Marco Embuste.
O João era um ganda maluco. Daí o nome. A pancada dele era tão forte como a do Mike Tyson. No dia em que conheci o João Maluco, naquele dia de sol radiante e calor intenso que não dava sequer para estar nem na piscina ou no mar ou no rio, ou no caralho que fosse onde pudéssemos estar, nesse dia mesmo em que o sol pareceu querer queimar toda a terra, em que eu pensei que seria o fim do mundo (em cuecas, ainda por cima, tal o calor), a previsão tornada realidade, enfim, nesse dia calorento de fazer queimar uma formiga em dois minutos ao sol, dizia-vos, nesse dia em que me não alembro tampouco de como estava o tempo, nesse dia em que conheci o João Maluco ele perguntara-me:
– Eh, mano, tu não és aquele que namorava a Cristina Ana? – O caralho da pergunta já começava a chatear tanto quanto estou agora ao recordar tudo isto. E eu sem saber quem era o João e as suas raízes, respondi:
– Já me começa a enervar essa conversa da Cristina Ana, caralho. Toda a gente me pergunta isso, foda-se. Qualquer dia passo-me dos cornos. Já não estou com ela há dois meses e toda a gente a perguntar-me por ela, foda-se. – E mal termino estas palavras me apercebo que o João por algum motivo era Maluco, calo-me e refreio os nervos à espera do soco. Não veio. Começou a rir-se e a dizer para me acalmar, e pega lá, fuma deste, manda foder a gaja, não faltam é gajas. E eu, com o suor já sobre a testa, aceito o charro e dou duas passas, tudo parece voltar à normalidade. Porém, a partir dali nunca mais houve normalidade na minha vida. Já estava dentro.

Se calhar, o melhor é fazer uma pausa e voltar dentro de momentos, depois de me passarem os nervos. Não fujais, volto num instante e contar-vos-ei mais alguns episódios.