Capítulo VII



        Pois bem, aquilo foi uma noite dos diabos. Quando acordei dois dias depois é que me dei conta do que tinha sucedido. Foi de arromba. Eis como tudo aconteceu e como veio a ser fatal para o Hugo, que, como vos disse anteriormente, se suicidou na casa da Teresinha nessa noite.
Era um tempo sombrio esse a que me dediquei, e as nuvens pairavam sobre mim como o remorso paira sobre o assassino, e, não obstante caminhei por ele sempre com um pé num lado e o outro noutro, quase coxo, porém seguro de que um era suficiente. Dir-vos-ia que nesse tempo sob a escuridão que ia desabando por sobre mim surgia de um lado uma parede que alertava a mediocridade e no outro a prosperidade e em frente surgia fulminante o futuro enquanto atrás ia desaparecendo tudo de mim e do meu passado e de tudo que fez parte de mim e mesmo quem não fez e tudo aquilo que me construiu e constituiu e o caralho que foda toda esta prosa nojenta e portuguesa que se tenta escrever.
Assim, tomei um copo de cerveja e novamente outro e mais outro e quando enfim dei por mim tinha mamado oito cervejas e estava mais para lá do que para cá, mas foi então que o Espadas veio ter comigo, mesmo quando o combinado era estar uma hora antes, o que evitaria ter bebido tanta cerveja, e me disse:
– Então, Zé, pronto?
– Caralho, então o combinado não era às oito?
– Desculpa, atrasei, fiz um antes de sair e acabei por adormecer.
– Foda-se!
– Já estás bebido.
– Não, só bebi algumas cervejas.
– Mas estás pronto?
– Claro, estou sempre pronto, caralho.
– Então vamos lá, que os outros já lá estão, segundo recebi mensagem há pouco do João. Queres fumar um?
– Pode ser, embora com as cervejas o mais certo é cair de morto.
– Tu és forte.
– Forte como o caralho!
– Ahahahaha (riu-se como um maluco, e eu é que as tinha bebido!)
Quando deixámos o estabelecimento do Manuel Queirós, um tipo cujo maior feito foi a sua filha Natasha, que era uma bomba dos diabos, caraças, e que em tempos fodi de longe (pelo que sei o João fodeu-a de perto. É o que se diz.), eram já perto das dez e em casa do João esperavam-nos há duas horas. A corja estava lá toda. E como sempre estavam umas gajas que não fazia ideia de quem caralho eram, mas cuja presença, de facto, era bastante apreciável. Não vou mencionar todas, afora aquelas que mais se destacavam, segundo critérios meus. Assim, estava a Rita Matos, uma fulana com umas mamas tão enormes como as mamadas que fazia. A Raquel João, uma fulana fácil e comestível. A Rita Gomes, uma fulana mais puta que as putas da esquina da Rua Doutor Gomes Maricas (sim, a rua existe mesmo). A Carolina Gonçalves, uma porquita com a mania que comia quem queria, mas que, no fundo, era comida por todos. E ainda, e por fim, a Maria Moniz, uma pacóvia betinha que ninguém comia porque não valia um caralho. Assim, a casa do João não era apenas a casa onde se consumia droga, mas um bordel com as maiores putas da cidade. Se é puta, tem de estar na casa do João, eis a frase que se tornou célebre por nós.
Nessa noite todos se safaram, até o Jota, um coninhas que de vez em quando se juntava a nós. Por ser um conas do tamanho da cona da Rita Matos, só é referido nesta passagem, restando no esquecimento.
Foi uma noite fatal, com efeito, para o Hugo. Mau grado não bater bem dos cornos, era um tipo bestial. Ainda hoje me recordo, como se fosse há minutos, da cara dele nessa noite quando veio ter comigo e me disse:
– É hoje que vou papar a Teresinha. (A forma como o dizia provocava sempre um sorriso em qualquer um de nós.) – Há um ano que ando tentar papá-la mas a gaja faz-se de difícil.
– Tens de ir com calma – disse-lhe.
– Ela hoje está bem boa.
– Ela está sempre boa.
– Não me digas que  já a papaste?!
– Eu? Nem pensar. – Na verdade, eu e a Teresinha temos uma história.
– …
– E então, que pretendes fazer? – E nessa altura aproximou-se de nós o Rodrigo, o seu irmão, e terminámos ali a conversa.
O Hugo era um tipo bestial, mas falho da cabeçorra. Alguma coisa não batia certa nos neurónios e a informação passava erradamente. Se hoje estivesse vivo, estaria aqui comigo, provavelmente, a fazer-me companhia, porque o Hugo, a despeito de tudo, era um tipo bestial e bestialmente bestial e mais do que isso, era um puto bestialmente bestial. O Hugo era bestial, sabeis? Bestial. Era de facto bestial. Bestial. Já eu sou uma besta que estou para aqui a repetir-me porque agora fiquei a pensar no Hugo e na sua tragédia, que, de alguma forma, também foi e é a nossa. Uma semana antes disse-me que o seu sonho era ser homem do lixo, pois, segundo dizia, adorava trabalhar de noite e andar agarrado ao camião e poder estar livre e não ter nenhum filho da puta a mandar vir com ele no trabalho. Sendo rico, era um tipo bestialmente desprendido das coisas. O irmão, o Rodrigo, é um tipo diferente. Muito ligado ao dinheiro, dá-se ares de afetado, apesar de bom rapaz e de excelente companhia. Quando o Hugo faleceu, passou um mês fechado no seu quarto e só de lá saiu quando, depois de todos nós discutirmos o assunto, o fomos levantar de lá. Foram precisas quatro horas para que se resolvesse a sair do quarto. Mas lá saiu. Aos poucos foi-se habituando, até quanto se pode habituar alguém com a morte de um ente querido, à ideia de desaparecimento do irmão. Desaparecimento é a forma como nos referimos à morte do Hugo, pois nunca nos referimos à sua morte. O Rodrigo começara a andar connosco poucos meses antes.
O Rodrigo e o Hugo foram-se para o outro lado da sala, com o Hugo olhando para mim e piscando-me o olho como que a dizer que a Teresinha estava daquele lado. Eu decidi-me a dar uma volta a ver o que se estava a passar na casa das putas do João Maluco. E foi então que passando eu por um dos quartos olho para o seu interior e vejo o interior de uma das Ritas, como quem diz, entenda-se o corpo, que nesse momento se despia para dar umas com o Mário, o irmão da Aninhas, que também por lá esteve, embora pouco tempo. O sacana safava-se bem com as mulheres. A irmã também se andava a safar bem, pelo que soubera dias antes. Mas isso já foi história. Já não o é mais. Recordo-me que após ver essa Rita despida e em busca não sei bem do quê me lembrei da Bulé. Havia dias em que sentia falta dela – porque de facto a sua companhia era para mim e para todos nós um verdadeiro sol que brilhava intensamente e nos parecia guiar por caminhos mais claros e seguros. Deu-me uma nostalgia nesse preciso momento que me levou a refugiar num dos quartos vazios a fim de a compreender.
Teria adormecido, talvez, ou atingindo um estado de recordação tal que parecia nem estar ali, mas na recordação, quando a Teresinha entrou no quarto. Cumprimentou-me e perguntou-me que ali estava a fazer e porque não estava a divertir-me como os outros. A princípio nem reagi à presença dela, tal era com efeito o estado em que estava, e nem sequer tinha consumido droga, ainda. Dois minutos passaram, acaso, e dou fé que ela ali estava a falar sozinha, parecia, mas afinal era comigo. Respondi-lhe que me refugiara ali porque não me estava a sentir confortável na sala e porque estava nostálgico. Não tivera eu esse propósito, mas as mulheres, por alguma razão que não sabemos explicar, compadecem-se por tipos que estão neste estado de lamúrias. E foi isso, creio ainda hoje, que levou a Teresinha a despir o seu vestido à minha frente, a pegar na minha mão e a introduzi-la no meio das suas coxas. Oh, que maravilha e quentinha era!, mas eu não estava para aí virado, e além disso, sabia que o Hugo pretendia comê-la nesse dia. Então, pedi-lhe desculpa, pois não estava com vontade, que me desculpasse. Ela felizmente compreendeu. Digo-vos, porém, que até hoje lamento não ter acedido a papá-la, pois, estou em crer, se o tivesse feito ela nunca teria levado o Hugo para sua casa e a sua morte porventura não teria ocorrido. Quando ela saiu, demorei-me uma hora para sair, fosse porque ainda latejava em mim a Bulé, fosse porque não me saía da cabeça a pelosidade da Teresinha, embora fosse ao contrário.
Por esta altura o João Maluco já tinha aviado uma das Ritas, e o Marco, pelo que viria a saber mais tarde nessa noite, umas três, porém nunca soube quais foram. Eu estava a seco e manter-me-ia, se pretendeis saber. Essa noite parecia prenunciar o que viria a suceder, e não sei porquê, eu já estava sob o efeito da escuridão. Foi então quando o Marco se abeirou de mim e me perguntou se queria um pouco de branca. Não era o que mais pretendia naquele momento, mas serviu igualmente. A nós vieram juntar-se o Espadas, os irmãos Santos, e o João. Enquanto a casa parecia estar sob assalto de malucos e malucas, nós ocupámos um dos quartos e ali ficámos a consumir e beber que nem alarves como se um asteroide estivesse na iminência de colidir com a terra e essa fosse a nossa última vez nela.
O Rodrigo entrou por essa altura no quarto e dissera-nos que o Hugo tinha saído com a Teresinha. Confesso que me alegrou saber que a minha rejeição resultou em pleno. Mas isso foi nessa altura, pois, hoje, arrependo-me deveras de não ter acedido ao apelo da Teresinha. A rapaziada toda ficou contente pelo Hugo porque tal como a mim ele contara e desabafara com todos sobre querer papar a Teresinha. Fizemos uma viva ao Hugo. Viva! Viva! Viva! E continuámos com a orgia.
Sairíamos de casa eram um quarto para as cinco, já o sol dava sinais de estar na espreita. Um dos Santos lembrara-se de querer ir a uma discoteca. Foi quando estávamos a sair da Porta que recebemos o telefonema da Teresinha, em pânico, a avisar-nos de que o Hugo se tinha atirado do apartamento dela.